Batman #12 é quase uma pausa no arco I’m Suicide. O andamento da história que deve culminar em mais um confronto entre o Cavaleiro das Trevas e Bane ocorre lentamente para que um novo fato na origem do herói de Gotham seja revelado.

A novidade vem em forma de carta, na resposta de Batman para a mensagem da Mulher-Gato na edição 10, e revela uma informação inédita – pelo menos nas histórias regulares: Bruce Wayne tentou se matar quando criança. Aos 10 anos, o herdeiro de Martha e Thomas cortou os pulsos e apenas decidiu continuar vivendo para lutar contra o crime.

O retcon segue o padrão do herói descrito por Tom King desde que ele assumiu o título em Rebirth e também oferece uma camada mais escura ao personagem que se alimenta das trevas e do medo para existir.

A decisão de King separa Bruce Wayne do Batman, transforma o traje do morcego em mais do que uma armadura ou proteção. O símbolo é a única justificativa para Wayne existir. Ele é um corpo para carregar o emblema.  Quando cortou os pulsos, Wayne morreu para o Cavaleiro das Trevas nascer.

Algo parecido está em Batman: Ano Um de Frank Miller e David Mazzucchelli. Bruce, depois de sofrer um acidente de carro ao escapar da polícia, chega à mansão muito ferido e começa a conversar com o espírito de seu pai. Wayne afirma que talvez precise morrer pois não aguenta mais esperar e indaga como pode fazer para que os criminosos sintam medo. Nesse momento, um morcego quebra a janela e invade a sala. O resto é história…

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Trecho de Batman: Ano Um, de Frank Miller

Voltando ao presente. Na mesma carta apresentada em Batman #12, Bruce fala para Selina como ele sabe ser ridículo o uniforme do morcego. Afirma que todos acham engraçado um homem vestido de animal lutando contra o crime na cidade. Para ele, até os seus falecidos pais achariam cômico, mas ela, a Mulher-Gato, o entende, fato que estreita ainda mais a relação dos dois personagens após o Rebirth.

Quando fala do uniforme, a carta de Bruce Wayne é interessante e original. O roteiro leva um senso de realidade para o personagem acusado de se levar a sério demais na maioria dos casos. A DC já fez isso com o Superman há algumas semanas – o filho de Clark vê o uniforme antigo do Homem de Aço e pergunta sobre a cueca vermelha por cima da calça – e essa escolha, acertada, vai ao encontro da proposta de tornar tudo menos pesado e sombrio para Clark Kent.

A conexão entre Bruce e Selina é enfatizada novamente

A conexão entre Bruce e Selina é enfatizada novamente

Nessa proposta da DC de retomar um versão mais esperançosa de seus heróis – o Rebirth foi realizado com esse objetivo -, o retcon realizado por King não faz sentido. Até porque, um garoto viu os pais serem assassinados em um beco escuro já tem um belo trauma para superar, e um homem que sai toda a noite – vestido de morcego – para combater o crime já é suicida o suficiente.

Se king queria fazer com que refletíssemos sobre vida, morte e propósito, poderia ter usado outro personagem. Mas isso seria menos ousado e chamaria menos atenção.

Incluir esse fato novo ao passado de Bruce é a segunda escolha corajosa do time criativo responsável por Batman. Depois de transformar a Mulher-Gato em uma serial killer, e o maior detetive do mundo em suicida, as atenções e – tensões- ficam todas voltadas para o final do arco I’m Suicide. Como essa edição termina com o Cavaleiro das Trevas encarando Bane após destruir o exército do vilão, o desfecho está próximo.

Talvez ainda exista alguma surpresa, mas no momento o retcon corajoso de King é desnecessário. Se tudo isso é para aproximar Wayne e Selina Kyle, foram longe demais.