A série Luke Cage, mais uma da Marvel produzida com exclusividade para a Netflix, está disponível desde sexta-feira (30/09) para os assinantes do serviço. Quem assistiu à Jessica Jones já conhece o herói superforte e com pele praticamente impenetrável. Faltava então conhecer seu universo, o Harlem, e o sistema que de maneira implacável aflige todos os moradores daquela parte de Nova York, perto, mas também muito longe do Brooklyn do Capitão América ou do Queens do Homem-Aranha.

Boca de Algodão é um vilão forjado pelo Harlem

Boca de Algodão é um vilão forjado pelo Harlem

O famoso bairro é o personagem mais importante do seriado. Sua música, costumes e habitantes forjaram e ainda hoje impulsionam Luke, a detetive Misty Knight, e os vilões Cornell “Boca de Algodão” Stokes (Cotonmouth), Willis “Kid Cobra” Stryker (Diamondback), Hernan ‘Shades’ Alvarez e Mariah Dillard. Não há espaço para Tratado de Sokovia ou a SHIELD em um lugar que tem seu próprio equilíbrio; vida própria.

Outros heróis e Hell’s Kitchen são citados mais de uma vez. Tudo o que acontece na série está conectado de alguma forma com as outras produções da Marvel, ainda mais quando Claire Temple (Rosário Dawson), a enfermeira presente em Demolidor e Jessica Jones, chega ao bairro e desempenha um importante papel na trama. A ligação com o cinema também existe. Justin Hammer, adversário de Tony Stark em Homem de Ferro 2, é o principal fornecedor de armas dos vilões.

Mas o Harlem tem um tipo de magnetismo. Uma vez dentro, um tipo de campo de força repele tudo o que não

Claire, a enfermeira de Demolidor Jessica Jones está na série

Claire, a enfermeira de Demolidor Jessica Jones está na série

nasceu ali. Durante um rap, Method Man – ele interpreta a si próprio no seriado – afirma que “não há Homem de Ferro para nos salvar”. O lugar parece estar fora do radar dos Vingadores, da SHIELD e até mesmo do Demolidor ou Frank Castle. Ninguém precisa explicar, a gente sente.

Todas essas características do Harlem elevam Luke Cage ao posto de único herói, mas também abrem espaço para um vilão implacável: o sistema. Contra o povo do bairro, basicamente formado na série por negros e latinos, a vereadora corrupta Mariah Dillard manipula fatos, enriquece com o dinheiro do tráfico de armas. A polícia, acuada e impotente, usa a força contra jovens nas esquinas – conhece algum lugar assim?

A série toca em uma ferida aberta. No momento, a discriminação racial contra negros está em pauta nos Estados Unidos – e isso é um problema grave em muitas outras nações. Lá nos EUA, jogadores de basquete e futebol têm se ajoelhado durante a execução do hino norte-americano em protesto pela postura violenta da polícia na abordagem de jovem negros. Assassinatos têm ocorrido. O tema é atual e precisa ser evidenciado ainda mais.

Kid Cobra é o vilão do segundo ato da temporada

Kid Cobra é o vilão do segundo ato da temporada

Mesmo ousando ao mostrar um retrato social ainda inédito em produções de super-heróis, a série também apresenta com precisão a origem de Luke Cage. Existem algumas mudanças se compararmos com os quadrinhos, porém, o fan service está lá, cristalino, em HD.

Outros pilares importantes para o entretenimento do público diverso também são desenvolvidos. Há violência, os poderes de Cage são explorados, a parte científica da transformação do protagonista tem seu espaço, o par romântico existe – com boa química – e os atores Mike Colter (Cage), Simone Missick (Misty Knight), Alfre Woodard (Mariah Dillard), Mahershala Ali (Cornell ‘Cottonmouth’ Stokes), Erik LaRay Harvey (Willis ‘Diamondback’ Stryker) Theo Rossi (Hernan ‘Shades’ Alvarez) e Rosario Dawson (Claire Temple) entregam um belo trabalho.

Como não há perfeição, existem alguns momentos piegas durante os 13 episódios, mas eles não comprometem a boa jornada. No fim, Luke Cage revela-se mais que uma nova série de herói e pode decepcionar aqueles que esperam ver algo parecido com Demolidor. Trata-se de um manifesto social, uma crítica ao sistema e como ele esmaga as minorias. Uma mensagem corajosa da melhor série da Marvel até então.