Uma ode aos sonhadores

Não é uma tarefa fácil falar sobre musicais, o gênero divide muitas opiniões entre os que tem repúdio total e nem passam perto das salas de exibições, e os que lamentam o quanto os atuais perderam a magia dos grandes clássicos do passado.

Independente de que lado você esteja é difícil ficar alheio aos comentários sobre esse longa, principalmente depois de ter batido o recorde de prêmios do Globo de Ouro, vencendo sete das sete indicações recebidas, incluindo melhor filme em comédia ou musical, melhor diretor e melhor roteiro, todos muito merecidos.

O maior êxito de La la Land- Cantando Estações (mais um subtítulo desnecessário) é resgatar toda a atmosfera lúdica dos musicais antigos da chamada “Era de ouro” do cinema, mas não se sustentar apenas nisso, as referências à filmes como Cantando na Chuva (52) e Os Guarda-Chuvas do Amor (63) são belas, porém sutis. O filme tem personalidade, escrito originalmente para o cinema, sem precisar passar pelos palcos da Broadway antes, ele nos apresenta personagens em busca de seus objetivos, sem nos poupar dos embates entre a dura realidade e a fantasia, algo que traz profundidade e aproxima um público mais cético. Para os protagonistas conseguirem o que almejam é necessário fazer escolhas que implicam em renúncias e consequências indesejadas.

Ryan Gosling (à esq.) e Emma Stone em cena de La La Land

Ryan Gosling (à esq.) e Emma Stone em cena de La La Land

O diretor e roteirista, Damien Chazelle, tem uma sensibilidade musical extraordinária e não apenas isso, entende sobre o meio, por isso sempre escolhe a música como pano de fundo que dita o ritmo da narrativa de seus personagens. Quando mais jovem, Chazelle queria ser baterista de jazz, experiência que serviu de base para o roteiro do seu filme anterior Whiplash (2014), aclamado pela crítica e que abriu as portas para a realização deste; antes disso o roteiro de La la Land percorreu durante cinco anos os estúdios, sem nunca ser aprovado para rodar com o orçamento requerido de US$ 30 milhões, dinheiro gasto para sua realização.

Tirando a inebriante sequência inicial, as outras músicas entram apenas para pontuar situações e de uma forma muito orgânica, sem a pretensão de coreografias espalhafatosas ou brilhantes alcances vocais, mas tudo feito com o coração de quem tem paixão pelo assunto. A música se integra ao filme, como se fosse apenas uma maneira que os personagens encontraram de manifestar seus desejos.

 Justin Hurtwitz é novamente o responsável pela trilha sonora. Ele é parceiro do diretor desde seu primeiro filme e espero que a parceria continue, mais química do que isso apenas entre o casal de protagonistas Emma Stone e Ryan Gosling.

Antes de La La Land, Emma e Ryan atuaram juntos em Caça aos Ganguesteres

Antes de La La Land, Emma e Ryan atuaram juntos em outros dois filmes

Emma e Gosling já atuaram juntos em Amor à Toda Prova (2011) e Caça aos Gângsteres (2013), a combinação é perfeita, ela com seu sorriso largo e cativante e ele com o ar cínico, mas que no fundo é um bom sujeito. Ambos são extremamente carismáticos, ela melhor cantora do que ele, porém os dois demonstram uma total entrega aos personagens. Os dois atores tiveram três meses de preparação para o filme, pois o diretor não queria usar dublês para as cenas. O que vemos das apresentações de piano é o próprio ator quem faz.

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Mia (Emma Stone) busca o sucesso como atriz em La La Land

Mia (Emma Stone) sonha em se tornar uma atriz reconhecida e enquanto não consegue, trabalha como atendente de uma lanchonete que fica dentro dos estúdios da Warner Bros. Sebastian (Ryan Gosling) é um pianista que sonha em ter seu próprio bar para tocar apenas o seu repertório de Jazz.Após se cruzarem algumas vezes por coincidência, e os encontros não serem tão amistosos, os dois se rendem a atração que sentem um pelo outro e iniciam uma relação.

Apesar do clima retrô dos anos 40, a história se passa na Los Angeles atual.  Cidade conhecida justamente por vender esperanças e partir o coração de muitos artistas que se mudam para lá, com o intuito de ter a tão esperada fama.  O congestionamento bem característico do local, serve como uma divertida ilustração de como existem inúmeros desses sonhadores. E o filme passeia muito bem por esses dois lados, a cidade que ludibria e a que decepciona; tudo isso enquanto passam as estações do ano, que servem para medir a temperatura do relacionamento do casal de protagonistas.

O visual é muito colorido e vibrante, a fotografia nos convence muito bem do porquê desse deslumbramento que tantos sentem. Linus Sandgren, diretor de fotografia, optou por locações reais e na maioria das vezes com luz natural, o que ajuda a transmitir a atmosfera de Los Angeles.

Chazelle, usa planos sequência longos com pouquíssimos cortes e opta por enquadramentos que mostram o corpo inteiro. Escolha feita para que realmente possamos ver as coreografias e o trabalho corporal dos atores, como se estivéssemos assistindo à um espetáculo de palco mesmo.

Não é um filme sobre trama, com reviravoltas, é sobre ambientação, identificação e sobre o

Ryan Gosling interpreta Sebastian, um pianista de Jazz

Ryan Gosling interpreta Sebastian, um pianista de Jazz

íntimo dos personagens.Minha única ressalva é que ao final existe um salto no tempo que me pareceu apressado, deixou algumas pontas soltas por não convencer nas motivações que levaram os personagens a tomarem tal atitude. Faltou problematizar mais, havia outra possibilidade, como o próprio filme nos mostra,e fica meio vago o motivo de não terem tentado. Mas isso é apenas um detalhe que não estraga a experiência.

Mesmo mostrando o lado cruel e pés no chão de como as coisas se sucedem na vida, o filme não deixa de defender o lado das pessoas que arriscam tudo em nome de seus sonhos. Como a própria letra da música, cantada por Mia em uma de suas audições, diz “Esse é para os que sonham, tolos como podem parecer”. E esse filme é para reacender a chama de esperança e um pouco de ingenuidade que possa existir ainda dentro de nós. Não podemos concretizar tudo que queremos na nossa vida cotidiana, mas é bom ter um filme que nos mostre que dentro de uma sala de cinema podemos usar nossa suspensão da descrença para aceitar esse tipo de mensagem positiva.

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